VIAGEM NAS NUVENS

Aos sessenta e oito anos e quatro meses de vida, aposentado, avô, resolvi que era hora de realizar certos sonhos até então classificados como “coisa de doido”, “fazer isso pra que?”, “ainda não criou juízo”, etc.

Ora, viver é preciso, embora viver não seja tão preciso. Não temos como colocar no papel tudo o que acontecerá no correr da vida, que precisa correr sim. Mas precisamos viver. Vivemos.

Já  navegar, é preciso, além de, em alguns casos, ser realmente preciso navegar. Navegamos pela necessidade de deslocamento, seja pelo ar, pela terra ou pelas águas, e isso de forma precisa, munidos e com auxílio de instrumentos que nos levarão exatamente onde queremos chegar. Navegando, percorremos e atravessamos água, atmosfera, espaço.

Até aqui eu já havia experimentado diversas formas de navegar, de carros, animais, avião, barcos, bicicletas, motocicletas, ônibus, ultraleve, paramotor e parapente, mas faltavam-me os que pareciam ser os mais radicais: asa delta, wingsuit e paraquedas.

Sair de casa e dizer para os filhos, para a irmã, para os amigos, enfim, avisar que “vou ali dar um salto de paraquedas” é algo que não parece tão acertado, pois com certeza haverão argumentos dissuasivos, convincentes, e você findará impedido de realizar seu intento.

Por isso, eu apenas fui ali, ver uns saltos de paraquedas. Com algum receio, é verdade, ainda indeciso, até agradecendo ao tempo, que no dia não estava muito “católico”, com muitas nuvens indicando uma possível precipitação de chuva, o que findou não acontecendo.

E com um belo sol emoldurado por poucas e ralas nuvens, fui convencido a experimentar o que já queria de há muito: um saldo duplo de paraquedas.

O Centro de Treinamento conceituado com um dos melhores e maiores da América do Sul, me proporcionou a impressão de segurança necessária aos insanos, que arriscam sua integridade para obtenção de um prazer desejado. Como eu, naquele momento.

Coincidentemente, embora há mais de três mil quilômetros de distância, o instrutor designado (ou sorteado, ou de plantão no momento) é da minha cidade, e demonstrou total simpatia e empatia, transmitindo confiança e segurança, tornando a experiência um encontro de amigos. Higor

As instruções necessárias são mínimas, o que a princípio deixa uma certa insegurança, mas minha certeza foi a de que ele certamente preza pela sua vida mais do que pela minha, e como saltaríamos atados um ao outro, isso igualava o nível de segurança com que eu contaria.

Várias pessoas, me parece que um total de cinco duplas mais dois cinegrafistas embarcaram em um avião monomotor, Cessna Caravan, com capacidade para transporte de 15 paraquedistas, apropriado para saltos, pilotado por uma jovem cujo nome não lembro, talvez pela tensão inicial. E durante o percurso de poucos minutos rumo aos 12 mil pés de altura para o salto, o ambiente foi carregado de brincadeiras e distrações.

Chegado o momento, cabeça para cima, pernas para trás e o vazio à frente da porta do avião se mostra como que o único caminho naquele momento. Nada passou para mente. Nada. O visual acima das nuvens e a certeza do sucesso no intento deslumbram, enquanto o “maluco” vislumbra uma realidade apenas imaginada até então.

Nada se compara. Incrivelmente natural, a queda se dá como que um salto em piscina, apenas com a duração maior e o barulho do vento ainda não conhecido. Em torno de um minuto, não mais que isso de queda livre, e as nuvens são invadidas, ao tempo em que um pequeno solavanco (para minha surpresa) me informa que o paraquedas abriu.

Um silêncio contrastante, mas condizente com a velocidade agora praticada, suave, um plainar confortável que me remete a um voo de águia, de condor, de urubu em termais. Eu estou voando. A adrenalina jorra aos borbotões e o instrutor, como que para completar o êxtase, me oferece os controles do paraquedas para que eu sinta como comandar, dirigir, sentir o que é ir aonde eu quero, no ar.

Mais dois, três ou quatro minutos, sei lá, por sobre a rodovia repleta de caminhões e demais veículos, inicialmente formigas, aos poucos crescendo e se tornando gigantes em duas direções, o solo se aproxima, a velocidade aumenta com a proximidade e de repente, pousamos, eu sentado, na grama macia, como se brincasse de balanço.

Acabou. Três, quatro, cinco minutos? Sei lá, mas o tempo suficiente para querer voltar e subir novamente, e novamente saltar no vazio seguro que o paraquedas me proporcionou. Quero novamente. E vou novamente. Relato algum dia. Bom salto para quem quiser experimentar. Vale cada centavo e cada momento.

Obrigado minha namorada, que me deu força e me incentivou, obrigado Patrícia, que me convenceu, me explicou e me facilitou a decisão, obrigado Higor, maranhense como eu, instrutor bem humorado, que me transmitiu segurança e confiança, e que me trouxe até o solo (inteiro).

Até breve. Dessas formas de voar, ainda me faltam a asa delta e o wingsuit, com aquela de roupa de morcegos. Mas isso será outra história.

Solonel Jr.

Amante de fotografia, sangue cigano, inquieto por natureza, bancário por profissão, aposentado por sorte, jornalista por desaforo (registro nr 1.528/MA), turistante por vontade. Sou eu.

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